quarta-feira, 20 de maio de 2026

Reserva Emocional

 


Foi minha irmã que comentou comigo usando este termo: "Reserva Emocional". Ela falou como se fosse conhecido e até que eu mesmo já tivesse usado em outras conversas com ela. Como a minha memória já não anda tão bem como já foi isso bem que pode ser verdade, na hora eu rapidamente associei com "Reserva Cognitiva", aquela poupança intelectual que guardamos para a velhice ao exercitar o cérebro continuamente.

É essa Reserva Cognitiva que mantém meu pai ativo aos 91 anos. Ele ainda resolve palavras cruzadas, Sudoku e joga alguns jogos de cartas no computador, além de exercitar a memória guardando nomes e números de jogadores de futebol. Ao longo da vida a memória vai se esvaindo, a capacidade mental declina e é preciso fazer exercícios para se manter bem no final. A mesma coisa para exercícios físicos.

A Reserva Emocional é a memória de afetos e carinhos que guardamos para momentos internos de felicidade e alegria. Lembrar de momento felizes do passado nos faz feliz no presente. Guardar e oferecer afetos nos mantém felizes.



segunda-feira, 18 de maio de 2026

Viver menos

 Eu não quero viver menos. 

Não digo em dias, isso deixo que a fortuna decida. Eu não quero viver menos coisas, menos alegrias, menos tristezas, quero estar atento à vida para dela extrair tudo o que ela me oferecer.

Saber é o que me faz viver mais. Captar detalhes e transformar migalhas em fatias de pão.

Estes dias me ofereceram vários exemplos e me pus a pensar neste detalhes. Explico em quatro atos.

Ato I

Assisti novamente o filme "Murder by Numbers" um filme de Barbet Schroeder com Sandra Bullock de 2002 que foi disponibilizado no streaming recentemente.

O filme traz um drama adolescente vivido por Ryan Gosling, lá pelas tantas um aluno lê "O Barco Ébrio" de Rimbaud, que eu não conhecia. Lá fui eu ler o poema, entender o tema e contextualizar a referência. Rimbaud escreveu em 1871 um poema épico que traz as mesmas dores de um adolescente em 2002 e 2026, ouso dizer. 

Assistir o filme sem saber a referência é aproveitar menos o filme. Aprender com o filme é viver mais.

Ato II

Assisti o belo filme "A vida de Chuck" meio drama e meio fantasia de 2024, escrito e dirigido por Mike Flanagan, também no streaming.

Baseado num livro de 2020 de Stephen King, o filme traz uma poética fantasia sobre a morte. Numa aula de literatura uma personagem lê o poema Canção de Mim Mesmo de Walt Whitman (1892) que tem a bela estrofe:

Do I contradict myself?

Very well then I contradict myself,

(I am large, I contain multitudes.)

“Eu me contradigo?

Pois bem, eu me contradigo.

Sou amplo, contenho multidões”

Esse verso "I contain multitudes" é o título de uma música de Bob Dylan.

Lá fui eu ler o poema, ouvir a música, estudar Rimbaud....e assim ver o filme com mais atenção e viver mais. A atenção ao verso me abriu uma caixinha que abriu outra caixinha e eu, como Alice fui caindo em diferentes labirintos.

Ato III

Na jaboticabeira de casa pousou uma gralha-cancã.



Desavergonhada, ficou um tempão cantando um pio repetido e solene, Permitiu ser fotografada e nem se assustou com nossa presença. Quando cansou da monotonia foi-se.
Um colorido todo especial, com azul e um prateado sobre um branco alvo. 
Eu nunca tinha visto uma gralha cancã. A busca por imagem logo trouxe toda a ficha. Muitas fotos. Hábitos. Habitat. Fiquei conhecendo um pouco mais da fauna brasileira e vivi mais. O meu eu agora contém multitudes e contém a gralha cancã.

Ato IV

Estou sendo agraciado com um 'calendário do advento posterior'. Ao contrário do calendário do advento tradicional que nos prepara para o Natal com uma lembrança a cada um dos 25 dias que antecedem o Natal, neste eu estou recebendo presentes e lembranças nos 25 dias que sucedem meu aniversário. No sétimo dia eu recebi um bilhete em que a pessoa me felicitava por manter vivo, aos sessenta, os sonhos de infância. Numa clara referência a uma famosa citação de Schiller: "Mantém-se fiel aos sonhos da juventude". 
Essa citação eu conhecia, já a havia usado em um aniversário para um amigo. Recebê-la de volta a meu respeito me encheu de alegria e fez todo o sentido na minha busca de viver mais, que nada mais é que um dos meus sonhos de juventude. 



quarta-feira, 13 de maio de 2026

Cinquenta Centavos

 Estou sendo agraciado com um "vintecincoversário".

Explico o neologismo, na verdade é um calendário do advento automático, adaptado para presente de aniversário.

O calendário do advento é uma tradição alemã de oferecer às crianças um pequeno mimo por dia durante o advento, do dia 1o. de dezembro até o Natal. As empresas de chocolate vendem o calendário pronto, outras empresas também fazem o seu. As pessoas podem fazer de qualquer forma sempre com um presente por dia. Até uma empresa automobilística fez um mostrando 25 modelos de carro diferentes.

No ano passado eu fiz um automático, um gaveteiro com 25 gavetas que se abriam de modo automático, uma a uma durante 25 dias. 

Essa ideia evoluiu para presentear meus pais pelas Bodas de Ébano (66 anos de casados). Foi uma alegria, a cada dia eles abriam um novo presente, uma nova lembrança.

E agora sou eu que estou sendo gentilmente agraciado. No dia do meu aniversário recebi o primeiro presnte e agora terei um presente por dia, durante vinte e cinco dias.

Daí o neologismo: vintecincoversário, lembrando até de Alice no País das Maravilhas.

Anteontem recebi uma foto da Casa do Telégrafo em São Carlos, lembrando do meu avô que foi telegrafista da Companhia Paulista e foi muito importante para mim.

Hoje recebi um bilhete do meu irmão, que não encontrou uma moeda de cinquenta centavos de 1970.


Outra explicação se faz necessária. A tradição familiar era que começávamos a receber mesada quando soubéssemos ler. Quando eu aprendi a ler fiz um teste com meu avô que me pediu para ler algumas palavras no jornal, com o sucesso eu ganhei uma moeda de cinqüenta centavos (na época ainda levava trema) e com essa moeda eu fui no armazém e voltei com as mãos cheias de chiclete.

Meu irmão teve a feliz ideia de me trazer de volta essa lembrança.

Estou imensamente feliz com os presentes e as lembranças, uma por dia a cada dia até 4 de junho.


segunda-feira, 2 de março de 2026

Medalhas

 Hoje ele se foi.

Quando eu o conheci já estava com dor e pelos relatos que ouvi não estava em seu melhor.

Ele andava com dor, andava de lado e chegava atrasado, mas não vi as medalhas. Vi a dor, e algum abandono. Vi a dor e o poder do alcóol destruindo por dentro, poder que nos envergonha, que nos impede de falar abertamente e reconhecer que o problema é de todos, que somos parte do problema, que não fomos capazes de lidar e nem estancar o mal.

Hoje ele se foi e não sofre mais a dor. Ficamos nós com a dor da perda.


Dor elegante

Um homem com uma dor

é muito mais elegante

caminha assim de lado

como se chegando atrasado

andasse mais adiante


carrega o peso da dor

como se portasse medalhas

uma coroa um milhão de dólares

ou coisas que os valha


ópios édens analgésicos

não me toquem nessa dor

ela é tudo que me sobra

sofrer, vai ser minha última obra


Paulo Leminski, La vie en close

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Arara Astuta

 Arara Astuta foi o nome do meu primeiro projeto quando tive a minha breve carreira de professor universitário em uma instituição pública.

A ideia era que os projetos fossem nomes de animais e um adjetivo com a mesma letra, meio que copiando as versões do Linux.

O primeiro projeto foi Arara pois estava em Ituiutaba onde muitas araras nos faziam companhia.

O projeto consistia em um apoio para ensinar programação usando o AppInventor para desenvolvimento de aplicativos em celular. Uma linguagem simples, por meio de blocos e com o apelo de ter seu próprio aplicativo no final do projeto.

Consegui a aprovação e 5 bolsas. Alunos que trabalhavam comigo davam as aulas e posso acreditar que foi um bom resultado.

Hoje um dos alunos que trabalharam no projeto está defendendo seu doutorado. 

Estou imensamente feliz e orgulhoso!



segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Herança

Uma herança é quase sempre bem-vinda. Isso porque já pensamos imediatamente em herdar dinheiro, imóveis, joias… Uma tia distante que se mudou jovem para a Inglaterra deixou de herança para você uma ilha no oceano Índico, e um advogado inglês de colete e cartola viajou até o interior do Brasil para te encontrar e dar a notícia. Típico conto de fadas que funciona bem nos livros de aventura.

Eu não tenho — e nunca tive — nenhuma esperança em relação à herança. Qualquer coisa será dividida entre oito irmãos; entre primos então, nem vale fazer a conta.

Ainda assim, me considero um felizardo em matéria de herança. Herdei da minha avó paterna e da minha tia o gosto por palavras cruzadas. De um avô, o gosto pela matemática e pelo xadrez; de outro, o caráter e as brincadeiras com crianças.

Hoje quero falar de uma outra herança — gigantesca e impossível de medir.

No ano passado fizemos um encontro dos descendentes da minha bisavó. Uma festa bonita, alegre, com muita gente e muitas lembranças. Tenho pouquíssimas recordações dessa minha bisavó — eu era menino quando ela se foi. Felizmente, lembro muito dos meus tios-avós (filhos dela) e tenho alguns primos e primas de outros graus como se fossem irmãos. Nesta festa, comentei que ter mestrado e doutorado não era nada demais, dada a alta densidade de diplomas no salão.

Esse gosto e valorização do estudo tem uma razão. Conta-se que, em um momento difícil, minha bisavó percebeu que seria complicado manter todos os filhos na escola. Então ela fez uma escolha: colocou as filhas para estudar e os filhos para trabalhar. Meu avô completou apenas o ensino primário; minhas tias-avós se formaram. Uma decisão que ia contra o espírito da época — o normal era que mulheres não estudassem. Com essa escolha, minha bisavó mudou o rumo da família e deixou como herança a valorização do estudo e a importância de ter uma formação.

Meus estudos são fruto dessa herança.



sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Cruciverbalista

 O título do post é daquelas palavras que só existem para quem inventou, assim como 'aibofobia'. Bom.. 'aibofobia' é o palíndromo que designa quem tem fobia de palíndromos. Cruciverbalista é o nome que se dá para quem faz palavras cruzadas. 

Minha vó era cruciverbalista e espalhou o gosto por palavras-cruzadas para toda a família e não as cruzadas tradicionais mas sim todas charadas possíveis e imagináveis.

Este gosto chegou até mim, especialmente pelo ramo da minha tia Maria Ignez. Ela adorava todo e qualquer tipo de desafio, fosse com palavras, fosse com números, fosse de lógica ou de qualquer outra coisa. Tinha especial predileção pelos passatempos norte-americanos que conseguia nos aeroportos nas revistas da Penny Press e da Dell Crosswords.

Com ela aprendi e gostei de vários passatempos, fazíamos uns para os outros, assim como ela fazia e recebia das irmãs.

Foi da semente que ela plantou que nasceu o Desafio Muroa (www.muroa.com.br), do qual ela foi patrocinadora em alguns anos.

Este ano foi o primeiro ano de Desafio Muroa sem ela e não poderia deixar de ser um Desafio Muroa em homenagem a ela. 

Obrigado, tia Ig.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Para pensar.....

 

Anteontem fui assistir "A Recaída" no Ateliê Cênico de Filipe Doutel e Victória Camargo (também a atriz que encena o monólogo e está na foto), com direção de Marcelo Braga.

A peça é daquelas que incomoda e nos põe a pensar. Não traz em si nenhuma informação nova, nos coloca como espectadores e no final fica um incômodo do que não fizemos, do que esquecemos, do que permitimos e traz estas questões para o presente: o que não faço hoje, o que me esqueço e o que permito. 

Eu tinha um orgulho de pertencer a uma geração que restaurou a democracia no Brasil, que fez a abertura acontecer. A peça me derrubou, o que eu não fiz volta com força e cobrou a vida de milhares. 

Uma fala da peça diz: "Perdoar não é esquecer". Só me aliviei e consegui dormir quando completei: "Vingança não é justiça". Foi o que me amenizou.

Ver coisas que eu não vi, com emoção e respeito é o trabalho do artista.

Só tenho a agradecer.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Vergonha futura

 



Só para deixar registrado que no futuro iremos ter vergonha de como usamos a internet hoje.

Não foi por falta de conhecimento, não foi por falta de aviso.

Não é por falta de conhecimento, não é por falta de aviso.

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Antonico

Eu já nasci com apelido: Tonico.

Não por causa de Tonico e Tinoco (a dupla caipira de muito sucesso), mas sim por causa de Carlos Gomes. Eu sou campineiro, assim como Antônio Carlos Gomes, que tinha o apelido de Tonico. Grande ironia receber o apelido de um dos maiores músicos do Brasil e não conseguir tocar uma campainha sem desafinar.

Tonico é meu apelido desde o nascimento e quase um nome. Na família, é só assim que me chamam; os sobrinhos demoram a descobrir que eu tenho um nome.

Na infância, o bullying vinha pela canção: “Manhê, o Tonico me bateu...”. Isso me chateava um pouco, mas não me fez sofrer por muito tempo.

Mais bonita, e sem provocações, era: “O Antonico vou lhe pedir um favor...”, de Ismael Silva. Com meu nome e meu apelido, é claro que essa canção sempre aparecia na minha vida.

Mais recentemente, um grande amigo fazia questão de sempre me receber cantando essa canção. Era uma alegria. Não a música, mas o amigo. Uma alegria contagiante, daquelas que deixam marcas, que viram lembranças.

Hoje, esse meu amigo se foi. Nunca mais vou ouvi-lo cantarolar Antonico, mas, toda vez que essa canção tocar no rádio ou na minha lembrança, vou recordar a alegria dele.


Antonico
(Ismael Silva)
Oh Antonico, vou lhe pedir um favor
Que só depende da sua boa vontade
É necessário uma viração pro Nestor
Que está vivendo em grande dificuldade
Ele está mesmo dançando na corda bamba
Ele é aquele que na escola de samba
Toca cuíca, toca surdo e tamborim
Faça por ele como se fosse por mim
Até muamba já fizeram pro rapaz
Porque no samba ninguém faz o que ele faz
Mas hei de vê-lo muito bem, se Deus quiser
E agradeço pelo que você fizer

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Bragantino x Guarani - O jogo da generosidade

 

No dia 4 de dezembro de 1966, em Bragança Paulista, no estádio Marcelo Stefáni, deu-se o match entre o time da casa e o Guarani de Campinas. Eu tinha 7 meses incompletos. Em casa morávamos, meus pais e minhas duas irmãs mais velhas, de quatro e dois anos de idade.



EM PÉ (esquerda para a direita): Ronaldo, Luisão, Lever, Hamilton, Walter e Luisinho;
AGACHADOS (esquerda para a direita): Osmar, Paraguaio, Aloísio, Toninho, Felício e Wilsinho.
Fonte: https://historiadofutebol.com/blog/?p=128424

Também estava em casa o primo da minha mãe que tinha vindo de São Carlos para um temporada em Campinas para fazer um curso preparatório para o vestibular de medicina. Neste cenário: uma casa com três filhos, sendo um de meses; meus pais acolheram um primo para estudar.


No final de semana do dia 4 de Dezembro, um amigo do meu pai o ‘convidou’ para ir até Bragança Paulista para assistir o jogo entre o Guarani e o Bragantino. O ‘convidou’ está entre aspas porque o amigo precisava também do fusca do meu pai para ir até Bragança Paulista. Meu pai é Ponte Preta, mas o amigo era Bugrino e eles gostavam mais de futebol do que qualquer outra coisa. Convidaram o visitante que aceitou prontamente o programa de domingo. Meu pai disse que durante o jogo conversou com o presidente do Bragantino que era amigo do meu avô, mas não há outras fontes para confirmar.


Mais do que o jogo ou o programa de domingo, este fato revela a generosidade familiar em acolher um primo para uma temporada de estudos, isso aconteceu várias e várias vezes na minha casa.


E como diz o locutor de futebol: “o tempo passa” e o tempo passou.


Trinta anos depois, eu já tinha me mudado para a minha sexta cidade - Botucatu, meu primo estava muito bem estabelecido como médico pediatra em Cuiabá.


Minha filha precisou fazer uma cirurgia de rim antes de completar um ano. Eu recorri então a este primo para orientação e paz. Como ele tinha se formado justamente em Botucatu, calhou do médico da minha filha ser um colega de turma dele. Meu primo deu toda a orientação e apaziguamento que precisávamos. Foi de uma generosidade ímpar. Generosidade que sempre foi a característica dele. Quando nos recebia em São Carlos e examinava todas as crianças com o estetoscópio e fazia brincadeiras especiais com cada um. Generosidade ao dar uma piscina de plástico que fez a alegria de todas as crianças que iam passar as férias na casa dos avós.


Esta história não é para falar levianamente de alguma lei do retorno ou de qualquer tipo de compensação. Nenhuma das generosidades aqui citadas foi feita com intenção de reciprocidade, todas foram genuinamente desinteressadas. Só não posso deixar de acreditar que colocar generosidade no mundo faz o mundo um pouquinho melhor e com isso somos mais afeitos a generosidade.


Serviço:

BRAGANTINO 2 x GUARANI 1

Local: Estádio "Marcelo Stefani", em Bragança Paulista.

Bragantino: Ado; Luisinho, Ivan e Roberto; Hamilton e Valter; Anacleto, Dema, Aloisio, Helio Burini e Wilsinho. Técnico: Armando Ristow de Camargo - Major

Guarani: Dimas; Deleu, Paulo e Diogo; Odair e Tarciso; Carlinhos, Nelsinho, Osvaldo, Americo e Vagner. Técnico: Dorival Geraldo dos Santos

Gols: Aloisio (19-1), Osvaldo (40-1) e Anacleto (29-2).

Árbitro: José Batista dos Santos.

Renda: Cr$ 2.073.000 (1.560 pagantes)

Fonte: https://brfut.blogspot.com/2010/06/campeonato-paulista-1966-ii-turno.html




domingo, 11 de maio de 2025

59 != 60

 Quando criança meu medo era estar velho no ano 2000 quando teríamos carros voadores nas ruas. A conta era simples, eu teria 33 anos na virada do século (sim, eu contava a virada do século no ano 2000). Cristo morreu com 33 e eu podia estar muito velho para aproveitar os carros-voadores.

Por ter nascido em 1966 a minha infância foi da era espacial, os temas eram sempre ligados a foguetes, planetas, órbitas e, é claro, a ameaça de uma guerra nuclear. Na escola tínhamos palestras sobre como sobreviver a um ataque nuclear e como era a alimentação dos astronautas.

É natural que no meu aniversário de 5 anos o bolo tenha sido um foguete.



A figura não é essa, mas foi a que eu achei. Minha mãe fez um bolo de chocolate, cortou bloquinhos, embalou com papel alumínio e montou um foguete. Eu fiquei muito feliz!!

Outro aniversário que me deixou muito feliz foi o de 10 anos, quando dividi a festa com minha irmã que faz aniversário 9 dias antes e é dois anos mais nova. Chamamos todos amigos para casa e foi uma delícia. Me lembro de ter ganho um Matchbox com um leão que andava em círculos quiando o carrinho andava.

Não é o original, mas desse eu achei a foto perfeita.

Ontem fiz 59, ou como diria meu avô: completei 59, entrei nos 60, já é quase 61. Tive a alegria de comemorar com um super show, muito intimista com músicos que adoro tocando músicas que eu amo. Foi fantástico.

Também adorei ter ganho um guarda roupa novo, camisas com dizeres que me representam, camisetas que vou usar muito, um jogos de xadrez em cerâmica azul e uma imagem de Jesus 'good vibes'. Ou seja, tudo o que eu preciso para ser feliz.

Recebi mensagens de tudo quanto é quando, de todos os lugares em que trabalhei e todas as cidades que morei. Foi fantástico!

*O título é uma referência a um cartaz que coloquei na minha sala quando dava aula de programação e os alunos vinham pedir para arredondar a nota, 60 era a nota mínima para passar. 59 != 60 quer dizer 59 é diferente de 60 em algumas linguagens de programação e remete também a um dito na engenharia que diz que 60 é 100, ou 5 é 10, dependendo da nota para passar.



domingo, 9 de fevereiro de 2025

Pequenos gestos de grandes carinhos

 Não vivemos só de aplausos!

Eu gosto e preciso muito de alguns carinhos, de elogios, de saber-me bem quisto e que as pessoas ao meu redor me consideram.

Isso normalmente acontece nos momentos especiais, como aniversários ou grandes conquistas: novo emprego, passar num concurso, formaturas...

Isso também acontece nos momentos difíceis quando os ombros amigos aparecem sem que precisemos pedir, até mesmo uma pergunta:

- Tudo bem?

De quem tem o olhar atento e me vê cabisbaixo já é um grande gesto de carinho.

Hoje quero contar de gestos de carinhos mínimos, mas que fazem efeitos gigantescos. Eu recebi três recentemente.

Um casal de amigos ia receber outro casal para um jantar na sexta-feira e nos chamou para compartilhar o jantar e a conversa. Eles não tinham a obrigação, poderiam escolher qualquer casal entre vários e nos escolheram, não foi só um convite para um jantar, foi um gesto que também quer dizer: venham, vocês são sempre acolhidos, venham, gostamos da sua companhia, da sua conversa, os queremos perto. À parte o strogonoff de couve-flor estivesse fantástico, o convite nos fez muito bem.

Uma amiga foi apoiar uma filha que necessitava de um colo urgente, ela se desdobrou em uma longa e difícil viagem para estar perto da filha, fez a acolhida, lambeu as feridas e carregou no colo a cria, literalmente. A filha então resolve fazer uma declaração de gratidão, daquelas que nos enchem de emoção. A amiga não coube em si e compartilhou conosco o evento. Esse compartilhar nos trouxe muito perto daquele momento sublime. Muito mais do que compartilhar a mensagem também foi um recado dizendo o quanto somos importantes e o quanto confiam em nós, ouso até dizer com um pouco de audácia e sem nenhuma modéstia que talvez até tenhamos uma pequena participação naquele momento. À parte a delicadeza do gesto, o compartilhar nos fez muito bem.

Uma outra amiga ficou sabendo que um chalé no condomínio onde mora está para vender e nos manda uma mensagem sugerindo que compremos o imóvel. Não é uma grande oferta, nem uma super oportunidade, mas foi uma lembrança que também diz, venham, aproveitem conosco momentos felizes, vocês são queridos aqui, confiamos em vocês para estarmos juntos. À parte a beleza do lugar e nos achar capazes de fazer o investimento, a sugestão nos fez muito bem.

Sou muito feliz por ter amigos assim, que fazem sem perceber gestos tão carinhosos.

domingo, 19 de janeiro de 2025

O que temos para hoje

"É o que temos para hoje."

Essa frase me aparece recorrentement, ora aqui, ora ali, sempre com o sentido de temos que nos contentar o que nos apresenta no momento. Por exemplo, não estou no restaurante que queria, ou o restaurante onde estou não o prato que eu gostaria. È o que tem para hoje, me diz o amigo e assim me contento com o restaurante ou com o prato do dia que está disponível para aquele momento, é o que tem prá hoje.

Quando criança eu tinha toda a vida para frente e toda a preocupação em conquistar um futuro tranquilo, em fazer como a formiga e garantir o inverno da minha vida. Essa luta segue dia após dia, num sem fim de um futuro que nunca chega.

Agora, chegando quase na fase de ser considerado idoso, sinto que passou o tempo de criança, juventude e maturidade, dos quais guardo muitas lembranças felizes e outras nem tanto.

No fundo, sempre tive o que "tem para hoje" e considerar isso é a receita para ser feliz, dia após dia.

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Acender as velas e desfazer as malas

 

(https://miltonjung.com.br/2023/07/17/o-ritual-do-desfazer-das-malas-e-o-fim-de-uma-etapa-e-o-reinicio-de-outra/)

Chegar de viagem e já desfazer a mala. Assim sou eu. A mala desfeita e organizada faz parte da viagem. Nem todo mundo é assim, a mala pode ficar por dias num canto esquecido do quarto.

Estava desfazendo a mala da última viagem e a cada peça de roupa me vinha a lembrança do momento da viagem em que usei aquela roupa. Achei a lanterna que julgava perdida e veio a alegria de ter encontrado e a frustação de não ter usado quando precisava. Separei as lembranças e me veio a alegria em reencontrar pessoas. Ao final, com as roupas para lavar no cesto, os presentes arrumados e a mala no maleiro do armário finalmente me veio a sensação de 'festa acabada', poder descansar com a missão cumprida e recuperar as energias para recomeçar.

Pensava nisso e a memória, a cada dia mais falha, cantarolou os versos da música de Zé Keti: Apagar as velas, já é tradição....(Depois verifiquei e os versos são: Acender as velas, já é tradição, quando não tem samba, tem desilusão). Como estava pensando no fim, pensei em apagar. Fui traído.

Apagamos velas, desfazemos malas, fechamos ciclos para um novo recomeço. A mala lá está, pronta para um nova viagem. Terminar uma é já iniciar outra!

Obs. Fui buscar a foto para ilustrar o texto e encontrei o ótimo texto do Milton Jung, mesmo tema, mas muito melhor.


segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Tonico e a sopeira

 Diz a minha mãe que eu era fascinado por espelhos e reflexos, nem que fosse no botão do porta-luvas do fusca.

Uma das imagens que me fascinava e está na minha memória, do fusquinha eu não me lembro, é o meu reflexo numa sopeira de inóx gigante. Eu colocava minha cabeça até a metade e via meu reflexo invertido e uma imagem real, ou seja que se formava entre o meu rosto e a sopeira.

Aquilo me encantava. Depois de ver a minha imagem eu comecei a colocar objetos, mas era difícil colocar o objeto e ficar numa janela de visão adequada. Para solucionar este problema eu colocava um palito de churrasco e ganhava algum espaço.

Minha frustação era não conseguir explicar para ninguém o que eu fazia com a cabeça enviada na sopeira.

Quando eu finalmente esudei ótica e aprendi sobre espelhos côncavos eu consegui entender o que estava acontecendo. Lembro que na aula eu comentei com o professor, que educadamente concordou comigo, mas não me deu muita trela.

O reflexo do meu nariz na sopeira só me interessava a mim.

Esta semana, a sopeira voltou com um gostinho de vitória. Recebi de uma amiga minha esse vídeo de Oxford Math: https://youtu.be/w7Rt6lYoYnI?si=p8MPGLln61EN6QST


Uma 'sopeira' muito mais chique e tecnológica, mas com o mesmo princípio!

Como é bom ter memória e ainda melhor ter amigos que nos conhecem.



quinta-feira, 23 de maio de 2024

Elegância

No dicionário das minhas pesquisas (priberam.pt) temos:
     1. Gosto delicado no trajar, no falar, no adorno da casa, etc.

    2. Graça, airosidade, delicadeza e distinção aliada à simplicidade e clareza.

"elegância", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2024, https://dicionario.priberam.org/elegância.

Neste final de semana estava ouvindo músicas numa viagem longa e me deparei com os versos: "Ah, como esta moça é distraída, sabe lá se está vestida, ou se dorme transparente", do Chico Buarque em "A noiva da cidade".

Pensei na elegância dos versos que mostram a moça dormindo nua com uma delicadeza toda especial, nem um toque de vulgaridade, muito pelo contrário.

Elegância me está muito mais vinculado à aparência, ao vestir por exemplo. Mas não é só isso, como se vê no dicionário Elegância pode estar no trajar, no falar, no enfeite, etc.

Algumas pessoas são de uma elegância ímpar, tratam todos de uma maneira tão gentil que é admirável. De pronto acho que quem não trata a todos não é elegante. Já havia meditado sobre essa elegância no falar e a definição que tenho é que elegância consiste em deixar o seu interlocutor à vontade.

Adoro que seja assim, que a elegância seja vista para o outro. O Chico, com um verso tão delicado, nos deixa extremamente confortáveis. Estar vestido de maneira adequada ao ambiente e aos costumes deixa as pessoas confortáveis. Mas é na fala que a elegância se mostra mais importante, usar a linguagem adequada, respeitosa, sensível... ouvir o que o outro tem a dizer com atenção, concordar com for para concordar, discordar com respeito quando for o caso.

Tenho o privilégio de conhecer pessoas muito elegantes e com elas aprendi um pouco esta arte.


A noiva da cidade está disponível em: https://open.spotify.com/intl-pt/track/4Q8HZYPUniUYcng839AT2R?si=9538f8312fbb47be



segunda-feira, 20 de maio de 2024

Corrimão

 


De uma pessoa que admiro muitíssimo ouvi recentemente que uma das mudanças que a idade trouxe foi o uso incondicional de corrimão. Nada de subir ou descer escadas atabalhoadamente, subir de dois em dois, carregando peso ou olhando o celular. Escada é lugar inseguro e o corrimão é equipamento necessário. Ouvi isso e pensei… Aliás, quando essa pessoa fala você deve ouvir e pensar, sempre!

Pensei que uma ponto de orgulho e vaidade que eu não precisava, que eu ainda mantenho o corpo esguio e atlético e consigo subir e descer escadas sem precisar de corrimão, que bobagem!

Um tombo pode causar um dano sério e não é por causa da idade, senão da sabedoria que o tempo traz, sabedoria que faz ver as coisas realmente importantes, que segundo a menos ao subir a escada não nos levam mais longe para nada.

Como a pessoa que me falou é sagaz, inteligente, por vezes ácida, mas sempre caridosa e amorosa, desci (segurando o corrimão) para mais uma camada. Pensei sobre o corrimão como a analogia de alguém que te dá a mão, a mãe que ensina a andar, o pai ao atravessar a rua, o amigo que acolhe, que sustenta, que limita…

Vamos sempre precisar dessa mão, em qualquer idade, a qualquer tempo.

Use sempre o corrimão!

segunda-feira, 25 de março de 2024

Klezmer

 A vida é feita de lembranças. De lembranças daquilo que aconteceu, que nos emocionou, de imagens, cores, sons, cheiros... é feita até daquilo que não aconteceu e guardamos na memória como algo que desejávamos ou temíamos. O que fica para a vida são as lembranças, por isso é importante cultivar e alimentar lembranças, por isso contamos histórias, escrevemos, guardamos fotografias e filmes.

E também por isso é importante criar lembranças!

Podemos ficar em casa e dormir, descansar, ou nos colocar à disposição da vida e ir atrás de acontecimentos que gerarão lembranças.

Podemos fazer mais, fazer o mundo girar e agitar corações e mentes para fazer eventos, reunir pessoas e criar boas lembranças.

Este domingo eu fui assistir, na casa de uma amiga um concerto de música Klezmer, com o grupo KlezmerKabaret.

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Klezmer é um gênero de música não-litúrgica judaica, desenvolvido a partir do século XV pelos asquenazes.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Klezmer


KlezmerKabaret


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A amiga encontrou o grupo, organizou o show, chamou os amigos, abriu a casa e recepcionou a todos com aquele sorriso acolhedor.

Finalizei o fim de semana pesado entre amigos, ouvindo uma música nova para mim, fazendo leve o domingo.

Obrigado, Val.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Viajar só

 Uma prima muito querida tinha o costume de viajar só. Ela adora viajar, mas nem sempre tinha companhia e isso nunca a impediu de viajar. Foi dela que eu ouvi pela primeira vez sobre o prazer de viajar sozinha.

O mais comum é que a viagem se dê em grupos, a gente viaja em família, em grupos de amigos e até monta grupo com desconhecidos para que a viagem fique mais divertida. Só que às vezes não. Pois numa viagem é que a verdade sobre as pessoas  pode aparecer.

Aliás, é até um conselho de avó: para conhecer uma pessoa você deve viajar com ela. 

Na viagem as coisas saem do seu normal, aparecem problemas, as instalações podem ser boas mesmo assim nunca são como as de nossa casa. Muitas vezes as instalações são piores. As viagens atrasam, a gente perde o horário ou espera infinitos. A comida pode ser boa e pode fazer mal, ou não ter quando chegamos tarde ao restaurante que já fechou.

Enfim, viajar é tudo de bom e pode conter tudo de ruim. Nesse intervalo as pessoas perdem o controle de seu comportamento e se revelam.

Viajar com alguém também significa fazer concessões, de horários, de lugares, de ritmo de passeio, de escolhas enfim. Significa estar em constante negociação. Também aqui as pessoas se revelam.

Eu fiz poucas viagens sozinho, acho que prefiro o conforto de casa do que a viagem solo. Nesse momento da vida estou imensamente feliz em ter comigo a melhor companhia de viagem! Alguém que me respeita e se respeita, propõe sem impor, fala e escuta e sempre, mas sempre mesmo coloca o bom humor em tudo!