Eu não quero viver menos.
Não digo em dias, isso deixo que a fortuna decida. Eu não quero viver menos coisas, menos alegrias, menos tristezas, quero estar atento à vida para dela extrair tudo o que ela me oferecer.
Saber é o que me faz viver mais. Captar detalhes e transformar migalhas em fatias de pão.
Estes dias me ofereceram vários exemplos e me pus a pensar neste detalhes. Explico em quatro atos.
Ato I
Assisti novamente o filme "Murder by Numbers" um filme de Barbet Schroeder com Sandra Bullock de 2002 que foi disponibilizado no streaming recentemente.
O filme traz um drama adolescente vivido por Ryan Gosling, lá pelas tantas um aluno lê "O Barco Ébrio" de Rimbaud, que eu não conhecia. Lá fui eu ler o poema, entender o tema e contextualizar a referência. Rimbaud escreveu em 1871 um poema épico que traz as mesmas dores de um adolescente em 2002 e 2026, ouso dizer.
Assistir o filme sem saber a referência é aproveitar menos o filme. Aprender com o filme é viver mais.
Ato II
Assisti o belo filme "A vida de Chuck" meio drama e meio fantasia de 2024, escrito e dirigido por Mike Flanagan, também no streaming.
Baseado num livro de 2020 de Stephen King, o filme traz uma poética fantasia sobre a morte. Numa aula de literatura uma personagem lê o poema Canção de Mim Mesmo de Walt Whitman (1892) que tem a bela estrofe:
Do I contradict myself?
Very well then I contradict myself,
(I am large, I contain multitudes.)
“Eu me contradigo?
Pois bem, eu me contradigo.
Sou amplo, contenho multidões”
Esse verso "I contain multitudes" é o título de uma música de Bob Dylan.
Lá fui eu ler o poema, ouvir a música, estudar Rimbaud....e assim ver o filme com mais atenção e viver mais. A atenção ao verso me abriu uma caixinha que abriu outra caixinha e eu, como Alice fui caindo em diferentes labirintos.
Ato III
Na jaboticabeira de casa pousou uma gralha-cancã.
