quarta-feira, 13 de maio de 2026

CInquenta Centavos

 Estou sendo agraciado com um "vintecincoversário".

Explico o neologismo, na verdade é um calendário do advento automático, adaptado para presente de aniversário.

O calendário do advento é uma tradição alemã de oferecer às crianças um pequeno mimo por dia durante o advento, do dia 1o. de dezembro até o Natal. As empresas de chocolate vendem o calendário pronto, outras empresas também fazem o seu. As pessoas podem fazer de qualquer forma sempre com um presente por dia. Até uma empresa automobilística fez um mostrando 25 modelos de carro diferentes.

No ano passado eu fiz um automático, um gaveteiro com 25 gavetas que se abriam de modo automático, uma a uma durante 25 dias. 

Essa ideia evoluiu para presentear meus pais pelas Bodas de Ébano (66 anos de casados). Foi uma alegria, a cada dia eles abriam um novo presente, uma nova lembrança.

E agora sou eu que estou sendo gentilmente agraciado. No dia do meu aniversário recebi o primeiro presnte e agora terei um presente por dia, durante vinte e cinco dias.

Daí o neologismo: vintecincoversário, lembrando até de Alice no País das Maravilhas.

Anteontem recebi uma foto da Casa do Telégrafo em São Carlos, lembrando do meu avô que foi telegrafista da Companhia Paulista e foi muito importante para mim.

Hoje recebi um bilhete do meu irmão, que não encontrou uma moeda de cinquenta centavos de 1970.


Outra explicação se faz necessária. A tradição familiar era que começávamos a receber mesada quando soubéssemos ler. Quando eu aprendi a ler fiz um teste com meu avô que me pediu para ler algumas palavras no jornal, com o sucesso eu ganhei uma moeda de cinqüenta centavos (na época ainda levava trema) e com essa moeda eu fui no armazém e voltei com as mãos cheias de chiclete.

Meu irmão teve a feliz ideia de me trazer de volta essa lembrança.

Estou imensamente feliz com os presentes e as lembranças, uma por dia a cada dia até 4 de junho.


segunda-feira, 2 de março de 2026

Medalhas

 Hoje ele se foi.

Quando eu o conheci já estava com dor e pelos relatos que ouvi não estava em seu melhor.

Ele andava com dor, andava de lado e chegava atrasado, mas não vi as medalhas. Vi a dor, e algum abandono. Vi a dor e o poder do alcóol destruindo por dentro, poder que nos envergonha, que nos impede de falar abertamente e reconhecer que o problema é de todos, que somos parte do problema, que não fomos capazes de lidar e nem estancar o mal.

Hoje ele se foi e não sofre mais a dor. Ficamos nós com a dor da perda.


Dor elegante

Um homem com uma dor

é muito mais elegante

caminha assim de lado

como se chegando atrasado

andasse mais adiante


carrega o peso da dor

como se portasse medalhas

uma coroa um milhão de dólares

ou coisas que os valha


ópios édens analgésicos

não me toquem nessa dor

ela é tudo que me sobra

sofrer, vai ser minha última obra


Paulo Leminski, La vie en close

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Arara Astuta

 Arara Astuta foi o nome do meu primeiro projeto quando tive a minha breve carreira de professor universitário em uma instituição pública.

A ideia era que os projetos fossem nomes de animais e um adjetivo com a mesma letra, meio que copiando as versões do Linux.

O primeiro projeto foi Arara pois estava em Ituiutaba onde muitas araras nos faziam companhia.

O projeto consistia em um apoio para ensinar programação usando o AppInventor para desenvolvimento de aplicativos em celular. Uma linguagem simples, por meio de blocos e com o apelo de ter seu próprio aplicativo no final do projeto.

Consegui a aprovação e 5 bolsas. Alunos que trabalhavam comigo davam as aulas e posso acreditar que foi um bom resultado.

Hoje um dos alunos que trabalharam no projeto está defendendo seu doutorado. 

Estou imensamente feliz e orgulhoso!



segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Herança

Uma herança é quase sempre bem-vinda. Isso porque já pensamos imediatamente em herdar dinheiro, imóveis, joias… Uma tia distante que se mudou jovem para a Inglaterra deixou de herança para você uma ilha no oceano Índico, e um advogado inglês de colete e cartola viajou até o interior do Brasil para te encontrar e dar a notícia. Típico conto de fadas que funciona bem nos livros de aventura.

Eu não tenho — e nunca tive — nenhuma esperança em relação à herança. Qualquer coisa será dividida entre oito irmãos; entre primos então, nem vale fazer a conta.

Ainda assim, me considero um felizardo em matéria de herança. Herdei da minha avó paterna e da minha tia o gosto por palavras cruzadas. De um avô, o gosto pela matemática e pelo xadrez; de outro, o caráter e as brincadeiras com crianças.

Hoje quero falar de uma outra herança — gigantesca e impossível de medir.

No ano passado fizemos um encontro dos descendentes da minha bisavó. Uma festa bonita, alegre, com muita gente e muitas lembranças. Tenho pouquíssimas recordações dessa minha bisavó — eu era menino quando ela se foi. Felizmente, lembro muito dos meus tios-avós (filhos dela) e tenho alguns primos e primas de outros graus como se fossem irmãos. Nesta festa, comentei que ter mestrado e doutorado não era nada demais, dada a alta densidade de diplomas no salão.

Esse gosto e valorização do estudo tem uma razão. Conta-se que, em um momento difícil, minha bisavó percebeu que seria complicado manter todos os filhos na escola. Então ela fez uma escolha: colocou as filhas para estudar e os filhos para trabalhar. Meu avô completou apenas o ensino primário; minhas tias-avós se formaram. Uma decisão que ia contra o espírito da época — o normal era que mulheres não estudassem. Com essa escolha, minha bisavó mudou o rumo da família e deixou como herança a valorização do estudo e a importância de ter uma formação.

Meus estudos são fruto dessa herança.



sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Cruciverbalista

 O título do post é daquelas palavras que só existem para quem inventou, assim como 'aibofobia'. Bom.. 'aibofobia' é o palíndromo que designa quem tem fobia de palíndromos. Cruciverbalista é o nome que se dá para quem faz palavras cruzadas. 

Minha vó era cruciverbalista e espalhou o gosto por palavras-cruzadas para toda a família e não as cruzadas tradicionais mas sim todas charadas possíveis e imagináveis.

Este gosto chegou até mim, especialmente pelo ramo da minha tia Maria Ignez. Ela adorava todo e qualquer tipo de desafio, fosse com palavras, fosse com números, fosse de lógica ou de qualquer outra coisa. Tinha especial predileção pelos passatempos norte-americanos que conseguia nos aeroportos nas revistas da Penny Press e da Dell Crosswords.

Com ela aprendi e gostei de vários passatempos, fazíamos uns para os outros, assim como ela fazia e recebia das irmãs.

Foi da semente que ela plantou que nasceu o Desafio Muroa (www.muroa.com.br), do qual ela foi patrocinadora em alguns anos.

Este ano foi o primeiro ano de Desafio Muroa sem ela e não poderia deixar de ser um Desafio Muroa em homenagem a ela. 

Obrigado, tia Ig.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Para pensar.....

 

Anteontem fui assistir "A Recaída" no Ateliê Cênico de Filipe Doutel e Victória Camargo (também a atriz que encena o monólogo e está na foto), com direção de Marcelo Braga.

A peça é daquelas que incomoda e nos põe a pensar. Não traz em si nenhuma informação nova, nos coloca como espectadores e no final fica um incômodo do que não fizemos, do que esquecemos, do que permitimos e traz estas questões para o presente: o que não faço hoje, o que me esqueço e o que permito. 

Eu tinha um orgulho de pertencer a uma geração que restaurou a democracia no Brasil, que fez a abertura acontecer. A peça me derrubou, o que eu não fiz volta com força e cobrou a vida de milhares. 

Uma fala da peça diz: "Perdoar não é esquecer". Só me aliviei e consegui dormir quando completei: "Vingança não é justiça". Foi o que me amenizou.

Ver coisas que eu não vi, com emoção e respeito é o trabalho do artista.

Só tenho a agradecer.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Vergonha futura

 



Só para deixar registrado que no futuro iremos ter vergonha de como usamos a internet hoje.

Não foi por falta de conhecimento, não foi por falta de aviso.

Não é por falta de conhecimento, não é por falta de aviso.