quarta-feira, 20 de maio de 2026
Reserva Emocional
segunda-feira, 18 de maio de 2026
Viver menos
Eu não quero viver menos.
Não digo em dias, isso deixo que a fortuna decida. Eu não quero viver menos coisas, menos alegrias, menos tristezas, quero estar atento à vida para dela extrair tudo o que ela me oferecer.
Saber é o que me faz viver mais. Captar detalhes e transformar migalhas em fatias de pão.
Estes dias me ofereceram vários exemplos e me pus a pensar neste detalhes. Explico em quatro atos.
Ato I
Assisti novamente o filme "Murder by Numbers" um filme de Barbet Schroeder com Sandra Bullock de 2002 que foi disponibilizado no streaming recentemente.
O filme traz um drama adolescente vivido por Ryan Gosling, lá pelas tantas um aluno lê "O Barco Ébrio" de Rimbaud, que eu não conhecia. Lá fui eu ler o poema, entender o tema e contextualizar a referência. Rimbaud escreveu em 1871 um poema épico que traz as mesmas dores de um adolescente em 2002 e 2026, ouso dizer.
Assistir o filme sem saber a referência é aproveitar menos o filme. Aprender com o filme é viver mais.
Ato II
Assisti o belo filme "A vida de Chuck" meio drama e meio fantasia de 2024, escrito e dirigido por Mike Flanagan, também no streaming.
Baseado num livro de 2020 de Stephen King, o filme traz uma poética fantasia sobre a morte. Numa aula de literatura uma personagem lê o poema Canção de Mim Mesmo de Walt Whitman (1892) que tem a bela estrofe:
Do I contradict myself?
Very well then I contradict myself,
(I am large, I contain multitudes.)
“Eu me contradigo?
Pois bem, eu me contradigo.
Sou amplo, contenho multidões”
Esse verso "I contain multitudes" é o título de uma música de Bob Dylan.
Lá fui eu ler o poema, ouvir a música, estudar Rimbaud....e assim ver o filme com mais atenção e viver mais. A atenção ao verso me abriu uma caixinha que abriu outra caixinha e eu, como Alice fui caindo em diferentes labirintos.
Ato III
Na jaboticabeira de casa pousou uma gralha-cancã.
quarta-feira, 13 de maio de 2026
Cinquenta Centavos
Estou sendo agraciado com um "vintecincoversário".
Explico o neologismo, na verdade é um calendário do advento automático, adaptado para presente de aniversário.
O calendário do advento é uma tradição alemã de oferecer às crianças um pequeno mimo por dia durante o advento, do dia 1o. de dezembro até o Natal. As empresas de chocolate vendem o calendário pronto, outras empresas também fazem o seu. As pessoas podem fazer de qualquer forma sempre com um presente por dia. Até uma empresa automobilística fez um mostrando 25 modelos de carro diferentes.
No ano passado eu fiz um automático, um gaveteiro com 25 gavetas que se abriam de modo automático, uma a uma durante 25 dias.
Essa ideia evoluiu para presentear meus pais pelas Bodas de Ébano (66 anos de casados). Foi uma alegria, a cada dia eles abriam um novo presente, uma nova lembrança.
E agora sou eu que estou sendo gentilmente agraciado. No dia do meu aniversário recebi o primeiro presnte e agora terei um presente por dia, durante vinte e cinco dias.
Daí o neologismo: vintecincoversário, lembrando até de Alice no País das Maravilhas.
Anteontem recebi uma foto da Casa do Telégrafo em São Carlos, lembrando do meu avô que foi telegrafista da Companhia Paulista e foi muito importante para mim.
Hoje recebi um bilhete do meu irmão, que não encontrou uma moeda de cinquenta centavos de 1970.
segunda-feira, 2 de março de 2026
Medalhas
Hoje ele se foi.
Quando eu o conheci já estava com dor e pelos relatos que ouvi não estava em seu melhor.
Ele andava com dor, andava de lado e chegava atrasado, mas não vi as medalhas. Vi a dor, e algum abandono. Vi a dor e o poder do alcóol destruindo por dentro, poder que nos envergonha, que nos impede de falar abertamente e reconhecer que o problema é de todos, que somos parte do problema, que não fomos capazes de lidar e nem estancar o mal.
Hoje ele se foi e não sofre mais a dor. Ficamos nós com a dor da perda.
Dor elegante
Um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante
carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisas que os valha
ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra
Paulo Leminski, La vie en close
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
Arara Astuta
Arara Astuta foi o nome do meu primeiro projeto quando tive a minha breve carreira de professor universitário em uma instituição pública.
A ideia era que os projetos fossem nomes de animais e um adjetivo com a mesma letra, meio que copiando as versões do Linux.
O primeiro projeto foi Arara pois estava em Ituiutaba onde muitas araras nos faziam companhia.
O projeto consistia em um apoio para ensinar programação usando o AppInventor para desenvolvimento de aplicativos em celular. Uma linguagem simples, por meio de blocos e com o apelo de ter seu próprio aplicativo no final do projeto.
Consegui a aprovação e 5 bolsas. Alunos que trabalhavam comigo davam as aulas e posso acreditar que foi um bom resultado.
Hoje um dos alunos que trabalharam no projeto está defendendo seu doutorado.
Estou imensamente feliz e orgulhoso!
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
Herança
Uma herança é quase sempre bem-vinda. Isso porque já pensamos imediatamente em herdar dinheiro, imóveis, joias… Uma tia distante que se mudou jovem para a Inglaterra deixou de herança para você uma ilha no oceano Índico, e um advogado inglês de colete e cartola viajou até o interior do Brasil para te encontrar e dar a notícia. Típico conto de fadas que funciona bem nos livros de aventura.
Eu não tenho — e nunca tive — nenhuma esperança em relação à herança. Qualquer coisa será dividida entre oito irmãos; entre primos então, nem vale fazer a conta.
Ainda assim, me considero um felizardo em matéria de herança. Herdei da minha avó paterna e da minha tia o gosto por palavras cruzadas. De um avô, o gosto pela matemática e pelo xadrez; de outro, o caráter e as brincadeiras com crianças.
Hoje quero falar de uma outra herança — gigantesca e impossível de medir.
No ano passado fizemos um encontro dos descendentes da minha bisavó. Uma festa bonita, alegre, com muita gente e muitas lembranças. Tenho pouquíssimas recordações dessa minha bisavó — eu era menino quando ela se foi. Felizmente, lembro muito dos meus tios-avós (filhos dela) e tenho alguns primos e primas de outros graus como se fossem irmãos. Nesta festa, comentei que ter mestrado e doutorado não era nada demais, dada a alta densidade de diplomas no salão.
Esse gosto e valorização do estudo tem uma razão. Conta-se que, em um momento difícil, minha bisavó percebeu que seria complicado manter todos os filhos na escola. Então ela fez uma escolha: colocou as filhas para estudar e os filhos para trabalhar. Meu avô completou apenas o ensino primário; minhas tias-avós se formaram. Uma decisão que ia contra o espírito da época — o normal era que mulheres não estudassem. Com essa escolha, minha bisavó mudou o rumo da família e deixou como herança a valorização do estudo e a importância de ter uma formação.
Meus estudos são fruto dessa herança.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2025
Cruciverbalista
O título do post é daquelas palavras que só existem para quem inventou, assim como 'aibofobia'. Bom.. 'aibofobia' é o palíndromo que designa quem tem fobia de palíndromos. Cruciverbalista é o nome que se dá para quem faz palavras cruzadas.
Minha vó era cruciverbalista e espalhou o gosto por palavras-cruzadas para toda a família e não as cruzadas tradicionais mas sim todas charadas possíveis e imagináveis.
Este gosto chegou até mim, especialmente pelo ramo da minha tia Maria Ignez. Ela adorava todo e qualquer tipo de desafio, fosse com palavras, fosse com números, fosse de lógica ou de qualquer outra coisa. Tinha especial predileção pelos passatempos norte-americanos que conseguia nos aeroportos nas revistas da Penny Press e da Dell Crosswords.
Com ela aprendi e gostei de vários passatempos, fazíamos uns para os outros, assim como ela fazia e recebia das irmãs.
Foi da semente que ela plantou que nasceu o Desafio Muroa (www.muroa.com.br), do qual ela foi patrocinadora em alguns anos.
Este ano foi o primeiro ano de Desafio Muroa sem ela e não poderia deixar de ser um Desafio Muroa em homenagem a ela.
Obrigado, tia Ig.
