quarta-feira, 20 de maio de 2026

Reserva Emocional

 


Foi minha irmã que comentou comigo usando este termo: "Reserva Emocional". Ela falou como se fosse conhecido e até que eu mesmo já tivesse usado em outras conversas com ela. Como a minha memória já não anda tão bem como já foi isso bem que pode ser verdade, na hora eu rapidamente associei com "Reserva Cognitiva", aquela poupança intelectual que guardamos para a velhice ao exercitar o cérebro continuamente.

É essa Reserva Cognitiva que mantém meu pai ativo aos 91 anos. Ele ainda resolve palavras cruzadas, Sudoku e joga alguns jogos de cartas no computador, além de exercitar a memória guardando nomes e números de jogadores de futebol. Ao longo da vida a memória vai se esvaindo, a capacidade mental declina e é preciso fazer exercícios para se manter bem no final. A mesma coisa para exercícios físicos.

A Reserva Emocional é a memória de afetos e carinhos que guardamos para momentos internos de felicidade e alegria. Lembrar de momento felizes do passado nos faz feliz no presente. Guardar e oferecer afetos nos mantém felizes.



segunda-feira, 18 de maio de 2026

Viver menos

 Eu não quero viver menos. 

Não digo em dias, isso deixo que a fortuna decida. Eu não quero viver menos coisas, menos alegrias, menos tristezas, quero estar atento à vida para dela extrair tudo o que ela me oferecer.

Saber é o que me faz viver mais. Captar detalhes e transformar migalhas em fatias de pão.

Estes dias me ofereceram vários exemplos e me pus a pensar neste detalhes. Explico em quatro atos.

Ato I

Assisti novamente o filme "Murder by Numbers" um filme de Barbet Schroeder com Sandra Bullock de 2002 que foi disponibilizado no streaming recentemente.

O filme traz um drama adolescente vivido por Ryan Gosling, lá pelas tantas um aluno lê "O Barco Ébrio" de Rimbaud, que eu não conhecia. Lá fui eu ler o poema, entender o tema e contextualizar a referência. Rimbaud escreveu em 1871 um poema épico que traz as mesmas dores de um adolescente em 2002 e 2026, ouso dizer. 

Assistir o filme sem saber a referência é aproveitar menos o filme. Aprender com o filme é viver mais.

Ato II

Assisti o belo filme "A vida de Chuck" meio drama e meio fantasia de 2024, escrito e dirigido por Mike Flanagan, também no streaming.

Baseado num livro de 2020 de Stephen King, o filme traz uma poética fantasia sobre a morte. Numa aula de literatura uma personagem lê o poema Canção de Mim Mesmo de Walt Whitman (1892) que tem a bela estrofe:

Do I contradict myself?

Very well then I contradict myself,

(I am large, I contain multitudes.)

“Eu me contradigo?

Pois bem, eu me contradigo.

Sou amplo, contenho multidões”

Esse verso "I contain multitudes" é o título de uma música de Bob Dylan.

Lá fui eu ler o poema, ouvir a música, estudar Rimbaud....e assim ver o filme com mais atenção e viver mais. A atenção ao verso me abriu uma caixinha que abriu outra caixinha e eu, como Alice fui caindo em diferentes labirintos.

Ato III

Na jaboticabeira de casa pousou uma gralha-cancã.



Desavergonhada, ficou um tempão cantando um pio repetido e solene, Permitiu ser fotografada e nem se assustou com nossa presença. Quando cansou da monotonia foi-se.
Um colorido todo especial, com azul e um prateado sobre um branco alvo. 
Eu nunca tinha visto uma gralha cancã. A busca por imagem logo trouxe toda a ficha. Muitas fotos. Hábitos. Habitat. Fiquei conhecendo um pouco mais da fauna brasileira e vivi mais. O meu eu agora contém multitudes e contém a gralha cancã.

Ato IV

Estou sendo agraciado com um 'calendário do advento posterior'. Ao contrário do calendário do advento tradicional que nos prepara para o Natal com uma lembrança a cada um dos 25 dias que antecedem o Natal, neste eu estou recebendo presentes e lembranças nos 25 dias que sucedem meu aniversário. No sétimo dia eu recebi um bilhete em que a pessoa me felicitava por manter vivo, aos sessenta, os sonhos de infância. Numa clara referência a uma famosa citação de Schiller: "Mantém-se fiel aos sonhos da juventude". 
Essa citação eu conhecia, já a havia usado em um aniversário para um amigo. Recebê-la de volta a meu respeito me encheu de alegria e fez todo o sentido na minha busca de viver mais, que nada mais é que um dos meus sonhos de juventude. 



quarta-feira, 13 de maio de 2026

Cinquenta Centavos

 Estou sendo agraciado com um "vintecincoversário".

Explico o neologismo, na verdade é um calendário do advento automático, adaptado para presente de aniversário.

O calendário do advento é uma tradição alemã de oferecer às crianças um pequeno mimo por dia durante o advento, do dia 1o. de dezembro até o Natal. As empresas de chocolate vendem o calendário pronto, outras empresas também fazem o seu. As pessoas podem fazer de qualquer forma sempre com um presente por dia. Até uma empresa automobilística fez um mostrando 25 modelos de carro diferentes.

No ano passado eu fiz um automático, um gaveteiro com 25 gavetas que se abriam de modo automático, uma a uma durante 25 dias. 

Essa ideia evoluiu para presentear meus pais pelas Bodas de Ébano (66 anos de casados). Foi uma alegria, a cada dia eles abriam um novo presente, uma nova lembrança.

E agora sou eu que estou sendo gentilmente agraciado. No dia do meu aniversário recebi o primeiro presnte e agora terei um presente por dia, durante vinte e cinco dias.

Daí o neologismo: vintecincoversário, lembrando até de Alice no País das Maravilhas.

Anteontem recebi uma foto da Casa do Telégrafo em São Carlos, lembrando do meu avô que foi telegrafista da Companhia Paulista e foi muito importante para mim.

Hoje recebi um bilhete do meu irmão, que não encontrou uma moeda de cinquenta centavos de 1970.


Outra explicação se faz necessária. A tradição familiar era que começávamos a receber mesada quando soubéssemos ler. Quando eu aprendi a ler fiz um teste com meu avô que me pediu para ler algumas palavras no jornal, com o sucesso eu ganhei uma moeda de cinqüenta centavos (na época ainda levava trema) e com essa moeda eu fui no armazém e voltei com as mãos cheias de chiclete.

Meu irmão teve a feliz ideia de me trazer de volta essa lembrança.

Estou imensamente feliz com os presentes e as lembranças, uma por dia a cada dia até 4 de junho.