segunda-feira, 2 de março de 2026

Medalhas

 Hoje ele se foi.

Quando eu o conheci já estava com dor e pelos relatos que ouvi não estava em seu melhor.

Ele andava com dor, andava de lado e chegava atrasado, mas não vi as medalhas. Vi a dor, e algum abandono. Vi a dor e o poder do alcóol destruindo por dentro, poder que nos envergonha, que nos impede de falar abertamente e reconhecer que o problema é de todos, que somos parte do problema, que não fomos capazes de lidar e nem estancar o mal.

Hoje ele se foi e não sofre mais a dor. Ficamos nós com a dor da perda.


Dor elegante

Um homem com uma dor

é muito mais elegante

caminha assim de lado

como se chegando atrasado

andasse mais adiante


carrega o peso da dor

como se portasse medalhas

uma coroa um milhão de dólares

ou coisas que os valha


ópios édens analgésicos

não me toquem nessa dor

ela é tudo que me sobra

sofrer, vai ser minha última obra


Paulo Leminski, La vie en close

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