segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Tonico e a sopeira

 Diz a minha mãe que eu era fascinado por espelhos e reflexos, nem que fosse no botão do porta-luvas do fusca.

Uma das imagens que me fascinava e está na minha memória, do fusquinha eu não me lembro, é o meu reflexo numa sopeira de inóx gigante. Eu colocava minha cabeça até a metade e via meu reflexo invertido e uma imagem real, ou seja que se formava entre o meu rosto e a sopeira.

Aquilo me encantava. Depois de ver a minha imagem eu comecei a colocar objetos, mas era difícil colocar o objeto e ficar numa janela de visão adequada. Para solucionar este problema eu colocava um palito de churrasco e ganhava algum espaço.

Minha frustação era não conseguir explicar para ninguém o que eu fazia com a cabeça enviada na sopeira.

Quando eu finalmente esudei ótica e aprendi sobre espelhos côncavos eu consegui entender o que estava acontecendo. Lembro que na aula eu comentei com o professor, que educadamente concordou comigo, mas não me deu muita trela.

O reflexo do meu nariz na sopeira só me interessava a mim.

Esta semana, a sopeira voltou com um gostinho de vitória. Recebi de uma amiga minha esse vídeo de Oxford Math: https://youtu.be/w7Rt6lYoYnI?si=p8MPGLln61EN6QST


Uma 'sopeira' muito mais chique e tecnológica, mas com o mesmo princípio!

Como é bom ter memória e ainda melhor ter amigos que nos conhecem.



quinta-feira, 23 de maio de 2024

Elegância

No dicionário das minhas pesquisas (priberam.pt) temos:
     1. Gosto delicado no trajar, no falar, no adorno da casa, etc.

    2. Graça, airosidade, delicadeza e distinção aliada à simplicidade e clareza.

"elegância", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2024, https://dicionario.priberam.org/elegância.

Neste final de semana estava ouvindo músicas numa viagem longa e me deparei com os versos: "Ah, como esta moça é distraída, sabe lá se está vestida, ou se dorme transparente", do Chico Buarque em "A noiva da cidade".

Pensei na elegância dos versos que mostram a moça dormindo nua com uma delicadeza toda especial, nem um toque de vulgaridade, muito pelo contrário.

Elegância me está muito mais vinculado à aparência, ao vestir por exemplo. Mas não é só isso, como se vê no dicionário Elegância pode estar no trajar, no falar, no enfeite, etc.

Algumas pessoas são de uma elegância ímpar, tratam todos de uma maneira tão gentil que é admirável. De pronto acho que quem não trata a todos não é elegante. Já havia meditado sobre essa elegância no falar e a definição que tenho é que elegância consiste em deixar o seu interlocutor à vontade.

Adoro que seja assim, que a elegância seja vista para o outro. O Chico, com um verso tão delicado, nos deixa extremamente confortáveis. Estar vestido de maneira adequada ao ambiente e aos costumes deixa as pessoas confortáveis. Mas é na fala que a elegância se mostra mais importante, usar a linguagem adequada, respeitosa, sensível... ouvir o que o outro tem a dizer com atenção, concordar com for para concordar, discordar com respeito quando for o caso.

Tenho o privilégio de conhecer pessoas muito elegantes e com elas aprendi um pouco esta arte.


A noiva da cidade está disponível em: https://open.spotify.com/intl-pt/track/4Q8HZYPUniUYcng839AT2R?si=9538f8312fbb47be



segunda-feira, 20 de maio de 2024

Corrimão

 


De uma pessoa que admiro muitíssimo ouvi recentemente que uma das mudanças que a idade trouxe foi o uso incondicional de corrimão. Nada de subir ou descer escadas atabalhoadamente, subir de dois em dois, carregando peso ou olhando o celular. Escada é lugar inseguro e o corrimão é equipamento necessário. Ouvi isso e pensei… Aliás, quando essa pessoa fala você deve ouvir e pensar, sempre!

Pensei que uma ponto de orgulho e vaidade que eu não precisava, que eu ainda mantenho o corpo esguio e atlético e consigo subir e descer escadas sem precisar de corrimão, que bobagem!

Um tombo pode causar um dano sério e não é por causa da idade, senão da sabedoria que o tempo traz, sabedoria que faz ver as coisas realmente importantes, que segundo a menos ao subir a escada não nos levam mais longe para nada.

Como a pessoa que me falou é sagaz, inteligente, por vezes ácida, mas sempre caridosa e amorosa, desci (segurando o corrimão) para mais uma camada. Pensei sobre o corrimão como a analogia de alguém que te dá a mão, a mãe que ensina a andar, o pai ao atravessar a rua, o amigo que acolhe, que sustenta, que limita…

Vamos sempre precisar dessa mão, em qualquer idade, a qualquer tempo.

Use sempre o corrimão!

segunda-feira, 25 de março de 2024

Klezmer

 A vida é feita de lembranças. De lembranças daquilo que aconteceu, que nos emocionou, de imagens, cores, sons, cheiros... é feita até daquilo que não aconteceu e guardamos na memória como algo que desejávamos ou temíamos. O que fica para a vida são as lembranças, por isso é importante cultivar e alimentar lembranças, por isso contamos histórias, escrevemos, guardamos fotografias e filmes.

E também por isso é importante criar lembranças!

Podemos ficar em casa e dormir, descansar, ou nos colocar à disposição da vida e ir atrás de acontecimentos que gerarão lembranças.

Podemos fazer mais, fazer o mundo girar e agitar corações e mentes para fazer eventos, reunir pessoas e criar boas lembranças.

Este domingo eu fui assistir, na casa de uma amiga um concerto de música Klezmer, com o grupo KlezmerKabaret.

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Klezmer é um gênero de música não-litúrgica judaica, desenvolvido a partir do século XV pelos asquenazes.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Klezmer


KlezmerKabaret


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A amiga encontrou o grupo, organizou o show, chamou os amigos, abriu a casa e recepcionou a todos com aquele sorriso acolhedor.

Finalizei o fim de semana pesado entre amigos, ouvindo uma música nova para mim, fazendo leve o domingo.

Obrigado, Val.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Viajar só

 Uma prima muito querida tinha o costume de viajar só. Ela adora viajar, mas nem sempre tinha companhia e isso nunca a impediu de viajar. Foi dela que eu ouvi pela primeira vez sobre o prazer de viajar sozinha.

O mais comum é que a viagem se dê em grupos, a gente viaja em família, em grupos de amigos e até monta grupo com desconhecidos para que a viagem fique mais divertida. Só que às vezes não. Pois numa viagem é que a verdade sobre as pessoas  pode aparecer.

Aliás, é até um conselho de avó: para conhecer uma pessoa você deve viajar com ela. 

Na viagem as coisas saem do seu normal, aparecem problemas, as instalações podem ser boas mesmo assim nunca são como as de nossa casa. Muitas vezes as instalações são piores. As viagens atrasam, a gente perde o horário ou espera infinitos. A comida pode ser boa e pode fazer mal, ou não ter quando chegamos tarde ao restaurante que já fechou.

Enfim, viajar é tudo de bom e pode conter tudo de ruim. Nesse intervalo as pessoas perdem o controle de seu comportamento e se revelam.

Viajar com alguém também significa fazer concessões, de horários, de lugares, de ritmo de passeio, de escolhas enfim. Significa estar em constante negociação. Também aqui as pessoas se revelam.

Eu fiz poucas viagens sozinho, acho que prefiro o conforto de casa do que a viagem solo. Nesse momento da vida estou imensamente feliz em ter comigo a melhor companhia de viagem! Alguém que me respeita e se respeita, propõe sem impor, fala e escuta e sempre, mas sempre mesmo coloca o bom humor em tudo!


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Eu rabisco livros

 


Não. Eu não rabisco livros, pelo contrário, eu tenho um respeito sepulcral por livros, dobrar a orelha nem pensar. Uso marcador de livros, nem a orelha da capa gosto de usar. Quero sempre deixar o livro como se novo fosse.
Tem gente que rabisca, faz anotações, usa marca texto de várias cores...
Hoje eu ouvi um podcast do programa "Rádio Novelo Apresenta" que trata desse assunto e me deixou muito emocionado. (https://open.spotify.com/episode/3XwbptWsX6YsWmjZMbCGtm?si=4emFpdXsRYO9H4B335L1qA)
E você? Risca e rabisca??


sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Petróleo Quinado Juvênia

 


Antigamente um salão de barbeiro era um salão de barbeiro, não era como hoje é um local onde se tem uma experiência masculina e, se der sorte, se corta o cabelo e se faz a barba. Os produtos masculinos também não tinham tanta especialidade e nem tantos cremes e poções.

Eu confesso que nunca fui um apreciador, não era um ambiente em que me sentia totalmente à vontade, amigos meus tinham barbeiros que conheciam a vida, parceiros, amigos, confidentes. Eu queria resolver logo a questão e voltar aos meus afazeres.

Num dado momento da minha infância/adolescência comecei a cortar o cabelo no mesmo barbeiro em que ia meu pai e meu irmão. Quando ia com meu pai não podia olhar as revistas masculinas, nem eram aquelas revistar pornográficas, mas revistas que eu jamais via em casa. O barbeiro era calado e isso me agradava também.

Em casa meu pai falou que ele parecia o Minelli, Rubens Minelli, técnico de futebol de muito sucesso. Pronto, passamos a chamá-lo de Minelli. "Hoje eu vou no Minelli." "Já tá na hora de ir ao Minelli." "Minelli te mandou lembranças".

Ontem fiquei sabendo que o Minelli, o técnico mesmo, faleceu aos 94 anos. Eu até estranhei, imaginava que ele já tinha falecido. Imediatamente mandei uma mensagem enigmática para meu irmão:

"Onde vamos cortar o cabelo agora?"

Meu irmão não entendeu e eu então mandei a notícia.

Das profundezas da memória mais absurda do mundo meu irmão lembrou o nome do barbeiro: José Peres (Perez) e da loção Petróleo Quinado Juvênia, que ilustra esse post.

Às lembranças do Minelli e do barbeiro vieram as lembranças da infância do tempo junto e de família. Da criação de laços nas pequenas coisas do dia-a-dia com que vamos tecendo a rede que nos sustenta a vida toda.