segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Herança

Uma herança é quase sempre bem-vinda. Isso porque já pensamos imediatamente em herdar dinheiro, imóveis, joias… Uma tia distante que se mudou jovem para a Inglaterra deixou de herança para você uma ilha no oceano Índico, e um advogado inglês de colete e cartola viajou até o interior do Brasil para te encontrar e dar a notícia. Típico conto de fadas que funciona bem nos livros de aventura.

Eu não tenho — e nunca tive — nenhuma esperança em relação à herança. Qualquer coisa será dividida entre oito irmãos; entre primos então, nem vale fazer a conta.

Ainda assim, me considero um felizardo em matéria de herança. Herdei da minha avó paterna e da minha tia o gosto por palavras cruzadas. De um avô, o gosto pela matemática e pelo xadrez; de outro, o caráter e as brincadeiras com crianças.

Hoje quero falar de uma outra herança — gigantesca e impossível de medir.

No ano passado fizemos um encontro dos descendentes da minha bisavó. Uma festa bonita, alegre, com muita gente e muitas lembranças. Tenho pouquíssimas recordações dessa minha bisavó — eu era menino quando ela se foi. Felizmente, lembro muito dos meus tios-avós (filhos dela) e tenho alguns primos e primas de outros graus como se fossem irmãos. Nesta festa, comentei que ter mestrado e doutorado não era nada demais, dada a alta densidade de diplomas no salão.

Esse gosto e valorização do estudo tem uma razão. Conta-se que, em um momento difícil, minha bisavó percebeu que seria complicado manter todos os filhos na escola. Então ela fez uma escolha: colocou as filhas para estudar e os filhos para trabalhar. Meu avô completou apenas o ensino primário; minhas tias-avós se formaram. Uma decisão que ia contra o espírito da época — o normal era que mulheres não estudassem. Com essa escolha, minha bisavó mudou o rumo da família e deixou como herança a valorização do estudo e a importância de ter uma formação.

Meus estudos são fruto dessa herança.



sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Cruciverbalista

 O título do post é daquelas palavras que só existem para quem inventou, assim como 'aibofobia'. Bom.. 'aibofobia' é o palíndromo que designa quem tem fobia de palíndromos. Cruciverbalista é o nome que se dá para quem faz palavras cruzadas. 

Minha vó era cruciverbalista e espalhou o gosto por palavras-cruzadas para toda a família e não as cruzadas tradicionais mas sim todas charadas possíveis e imagináveis.

Este gosto chegou até mim, especialmente pelo ramo da minha tia Maria Ignez. Ela adorava todo e qualquer tipo de desafio, fosse com palavras, fosse com números, fosse de lógica ou de qualquer outra coisa. Tinha especial predileção pelos passatempos norte-americanos que conseguia nos aeroportos nas revistas da Penny Press e da Dell Crosswords.

Com ela aprendi e gostei de vários passatempos, fazíamos uns para os outros, assim como ela fazia e recebia das irmãs.

Foi da semente que ela plantou que nasceu o Desafio Muroa (www.muroa.com.br), do qual ela foi patrocinadora em alguns anos.

Este ano foi o primeiro ano de Desafio Muroa sem ela e não poderia deixar de ser um Desafio Muroa em homenagem a ela. 

Obrigado, tia Ig.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Para pensar.....

 

Anteontem fui assistir "A Recaída" no Ateliê Cênico de Filipe Doutel e Victória Camargo (também a atriz que encena o monólogo e está na foto), com direção de Marcelo Braga.

A peça é daquelas que incomoda e nos põe a pensar. Não traz em si nenhuma informação nova, nos coloca como espectadores e no final fica um incômodo do que não fizemos, do que esquecemos, do que permitimos e traz estas questões para o presente: o que não faço hoje, o que me esqueço e o que permito. 

Eu tinha um orgulho de pertencer a uma geração que restaurou a democracia no Brasil, que fez a abertura acontecer. A peça me derrubou, o que eu não fiz volta com força e cobrou a vida de milhares. 

Uma fala da peça diz: "Perdoar não é esquecer". Só me aliviei e consegui dormir quando completei: "Vingança não é justiça". Foi o que me amenizou.

Ver coisas que eu não vi, com emoção e respeito é o trabalho do artista.

Só tenho a agradecer.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Vergonha futura

 



Só para deixar registrado que no futuro iremos ter vergonha de como usamos a internet hoje.

Não foi por falta de conhecimento, não foi por falta de aviso.

Não é por falta de conhecimento, não é por falta de aviso.

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Antonico

Eu já nasci com apelido: Tonico.

Não por causa de Tonico e Tinoco (a dupla caipira de muito sucesso), mas sim por causa de Carlos Gomes. Eu sou campineiro, assim como Antônio Carlos Gomes, que tinha o apelido de Tonico. Grande ironia receber o apelido de um dos maiores músicos do Brasil e não conseguir tocar uma campainha sem desafinar.

Tonico é meu apelido desde o nascimento e quase um nome. Na família, é só assim que me chamam; os sobrinhos demoram a descobrir que eu tenho um nome.

Na infância, o bullying vinha pela canção: “Manhê, o Tonico me bateu...”. Isso me chateava um pouco, mas não me fez sofrer por muito tempo.

Mais bonita, e sem provocações, era: “O Antonico vou lhe pedir um favor...”, de Ismael Silva. Com meu nome e meu apelido, é claro que essa canção sempre aparecia na minha vida.

Mais recentemente, um grande amigo fazia questão de sempre me receber cantando essa canção. Era uma alegria. Não a música, mas o amigo. Uma alegria contagiante, daquelas que deixam marcas, que viram lembranças.

Hoje, esse meu amigo se foi. Nunca mais vou ouvi-lo cantarolar Antonico, mas, toda vez que essa canção tocar no rádio ou na minha lembrança, vou recordar a alegria dele.


Antonico
(Ismael Silva)
Oh Antonico, vou lhe pedir um favor
Que só depende da sua boa vontade
É necessário uma viração pro Nestor
Que está vivendo em grande dificuldade
Ele está mesmo dançando na corda bamba
Ele é aquele que na escola de samba
Toca cuíca, toca surdo e tamborim
Faça por ele como se fosse por mim
Até muamba já fizeram pro rapaz
Porque no samba ninguém faz o que ele faz
Mas hei de vê-lo muito bem, se Deus quiser
E agradeço pelo que você fizer

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Bragantino x Guarani - O jogo da generosidade

 

No dia 4 de dezembro de 1966, em Bragança Paulista, no estádio Marcelo Stefáni, deu-se o match entre o time da casa e o Guarani de Campinas. Eu tinha 7 meses incompletos. Em casa morávamos, meus pais e minhas duas irmãs mais velhas, de quatro e dois anos de idade.



EM PÉ (esquerda para a direita): Ronaldo, Luisão, Lever, Hamilton, Walter e Luisinho;
AGACHADOS (esquerda para a direita): Osmar, Paraguaio, Aloísio, Toninho, Felício e Wilsinho.
Fonte: https://historiadofutebol.com/blog/?p=128424

Também estava em casa o primo da minha mãe que tinha vindo de São Carlos para um temporada em Campinas para fazer um curso preparatório para o vestibular de medicina. Neste cenário: uma casa com três filhos, sendo um de meses; meus pais acolheram um primo para estudar.


No final de semana do dia 4 de Dezembro, um amigo do meu pai o ‘convidou’ para ir até Bragança Paulista para assistir o jogo entre o Guarani e o Bragantino. O ‘convidou’ está entre aspas porque o amigo precisava também do fusca do meu pai para ir até Bragança Paulista. Meu pai é Ponte Preta, mas o amigo era Bugrino e eles gostavam mais de futebol do que qualquer outra coisa. Convidaram o visitante que aceitou prontamente o programa de domingo. Meu pai disse que durante o jogo conversou com o presidente do Bragantino que era amigo do meu avô, mas não há outras fontes para confirmar.


Mais do que o jogo ou o programa de domingo, este fato revela a generosidade familiar em acolher um primo para uma temporada de estudos, isso aconteceu várias e várias vezes na minha casa.


E como diz o locutor de futebol: “o tempo passa” e o tempo passou.


Trinta anos depois, eu já tinha me mudado para a minha sexta cidade - Botucatu, meu primo estava muito bem estabelecido como médico pediatra em Cuiabá.


Minha filha precisou fazer uma cirurgia de rim antes de completar um ano. Eu recorri então a este primo para orientação e paz. Como ele tinha se formado justamente em Botucatu, calhou do médico da minha filha ser um colega de turma dele. Meu primo deu toda a orientação e apaziguamento que precisávamos. Foi de uma generosidade ímpar. Generosidade que sempre foi a característica dele. Quando nos recebia em São Carlos e examinava todas as crianças com o estetoscópio e fazia brincadeiras especiais com cada um. Generosidade ao dar uma piscina de plástico que fez a alegria de todas as crianças que iam passar as férias na casa dos avós.


Esta história não é para falar levianamente de alguma lei do retorno ou de qualquer tipo de compensação. Nenhuma das generosidades aqui citadas foi feita com intenção de reciprocidade, todas foram genuinamente desinteressadas. Só não posso deixar de acreditar que colocar generosidade no mundo faz o mundo um pouquinho melhor e com isso somos mais afeitos a generosidade.


Serviço:

BRAGANTINO 2 x GUARANI 1

Local: Estádio "Marcelo Stefani", em Bragança Paulista.

Bragantino: Ado; Luisinho, Ivan e Roberto; Hamilton e Valter; Anacleto, Dema, Aloisio, Helio Burini e Wilsinho. Técnico: Armando Ristow de Camargo - Major

Guarani: Dimas; Deleu, Paulo e Diogo; Odair e Tarciso; Carlinhos, Nelsinho, Osvaldo, Americo e Vagner. Técnico: Dorival Geraldo dos Santos

Gols: Aloisio (19-1), Osvaldo (40-1) e Anacleto (29-2).

Árbitro: José Batista dos Santos.

Renda: Cr$ 2.073.000 (1.560 pagantes)

Fonte: https://brfut.blogspot.com/2010/06/campeonato-paulista-1966-ii-turno.html




domingo, 11 de maio de 2025

59 != 60

 Quando criança meu medo era estar velho no ano 2000 quando teríamos carros voadores nas ruas. A conta era simples, eu teria 33 anos na virada do século (sim, eu contava a virada do século no ano 2000). Cristo morreu com 33 e eu podia estar muito velho para aproveitar os carros-voadores.

Por ter nascido em 1966 a minha infância foi da era espacial, os temas eram sempre ligados a foguetes, planetas, órbitas e, é claro, a ameaça de uma guerra nuclear. Na escola tínhamos palestras sobre como sobreviver a um ataque nuclear e como era a alimentação dos astronautas.

É natural que no meu aniversário de 5 anos o bolo tenha sido um foguete.



A figura não é essa, mas foi a que eu achei. Minha mãe fez um bolo de chocolate, cortou bloquinhos, embalou com papel alumínio e montou um foguete. Eu fiquei muito feliz!!

Outro aniversário que me deixou muito feliz foi o de 10 anos, quando dividi a festa com minha irmã que faz aniversário 9 dias antes e é dois anos mais nova. Chamamos todos amigos para casa e foi uma delícia. Me lembro de ter ganho um Matchbox com um leão que andava em círculos quiando o carrinho andava.

Não é o original, mas desse eu achei a foto perfeita.

Ontem fiz 59, ou como diria meu avô: completei 59, entrei nos 60, já é quase 61. Tive a alegria de comemorar com um super show, muito intimista com músicos que adoro tocando músicas que eu amo. Foi fantástico.

Também adorei ter ganho um guarda roupa novo, camisas com dizeres que me representam, camisetas que vou usar muito, um jogos de xadrez em cerâmica azul e uma imagem de Jesus 'good vibes'. Ou seja, tudo o que eu preciso para ser feliz.

Recebi mensagens de tudo quanto é quando, de todos os lugares em que trabalhei e todas as cidades que morei. Foi fantástico!

*O título é uma referência a um cartaz que coloquei na minha sala quando dava aula de programação e os alunos vinham pedir para arredondar a nota, 60 era a nota mínima para passar. 59 != 60 quer dizer 59 é diferente de 60 em algumas linguagens de programação e remete também a um dito na engenharia que diz que 60 é 100, ou 5 é 10, dependendo da nota para passar.