quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Até as pedras se encontram - parte II

photo by: Cowtown Lutheran

Minha prima está em Londres a tanto tempo que nem me lembro mais. Sei que ela foi para lá em 1986 quando meu tio foi fazer o doutorado. Lá ela ficou.
Minha amiga cantora foi para Londres fazer o mestrado e lá ficou.
Nas vezes em que estive em Londres sempre as visitei e é claro falei de uma para outra. Mas Londres é uma cidade grande, agitada e cada qual tem sua vida, seus compromissos, seus interesses.
Um belo dia recebo duas mensagens, uma de minha prima, outra de minha amiga cantora. Elas finalmente se encontraram e se reconheceram pela minha pessoa.
Eu ainda não sei como elas se reconheceram, minha prima me chama pelo apelido, minha amiga pelo primeiro nome. Imagino o que conversaram, o quanto tiveram que se falar para achar os pontos comuns.
Sei que fiquei feliz com o encontro, quem sabe da próxima ver que for a Londres consigamos estar todos juntos.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Até as pedras se encontram - parte I

photo credit: AA7JC via photopin cc

Meu tio Júlio tinha frases que podem ser classificadas como "Filosofia de Botequim". Uma delas era: "Envelhecer sorrindo." A príncipio pensava na questão de manter a alegria mesmo com as perdas da idade, mesmo com uma dorzinha aqui, uma restrição ali, devíamos manter a alegria e continuar sorrindo. Com um pouquinho mais de profundidade dá para entender como manter sempre o sorriso, já que envelhecemos um pouco a cada dia. A alegria da vida deve ser de todo dia.
Outra frase era: "Até as pedras se encontram." No rio uma pedrinha vai rolando, rolando e acaba por encontrar com outra. Ele sempre dizia isso quando falávamos de conhecidos, de viagens, de parentes distantes.
E isso é a mais pura verdade, até as pedras se encontram.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Delia Elena San Marco*

Nos despedimos no metrô em São Paulo, em um sábado à noite. Você voltava de um concerto e eu iria para casa de minha vó depois de te ouvir cantar. Estávamos de branco e preto, você por uniforme do coral e eu por pura casualidade.
De lados opostos da estação eu brinquei de fazer sinais com os braços, como fazem os marinheiros. Os trens chegaram e interromperam nosso diálogo impossível.
Menos de um ano se passou e nunca mais pude saber se você compreendeu minha brincadeira de sinais.
Hoje, depois de jantar, me pus a ouvir uma gravação sua do Lundu Brasileiro. A música fluiu e então percebi que fluída é a música, é o trem, é a vida.
Mesmo que se grave a música, que se fotografe o trem e que se registre a vida em qualquer meio possível, é a fluidez que marca os momentos que passamos.
A memória daquela despedida não é a despedida, que foi eterna, mas uma lembrança. Só possível pela existência daquele momento. Aquele momento que foi nosso e que agora é só meu na minha memória, que também é fluída.

Não sei se nos encontraremos, no metrô de São Paulo ou no Tube Londrino, se retomaremos aquela lembrança ou deixaremos que a memória daqueles momentos também flua e possamos construir outros.


* Parafraseando J.L. Borges

domingo, 6 de outubro de 2013

Construindo uma boa lembrança

Lembrar bons momentos é uma das coisas mais gostosas da vida.
Para se ter bons momentos no futuro é preciso criar bons momentos agora. Estar disposto a se mover, a fazer algo, a encontrar pessoas, a fazer coisas diferentes...
Daqui 6 dias eu vou correr uma outra maratona.
A preparação não foi tão bem executada, mas estou confiante.
Chicago, lá vou eu!

Essa viagem tem o apoio de Bliss Turismo (http://www.blissturismo.com.br/)

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

O efeito deletério da impunidade

Muita comoção apareceu nas redes sociais por conta do julgamento dos embargos infringentes pelo Supremo Tribunal Federal, decidido nesta última quarta-feira. Posições à favor e contra, posições baseadas no sentimento de impunidade, ou baseadas nas garantias legais, posições ideológicas, posições políticas e por assim vai. Minha primeira opinião foi de confirmação da previsão de impunidade, mesmo que concorde com os aspectos legais da decisão tomada. Aprofundando o tema percebo que a sensação de impunidade é corrente e não está distante, em Brasília, senão aqui, no meu quarteirão, no meu dia-a-dia. Meu vizinho vai fazer uma reforminha e deixa um monte de areia na calçada, eu tenho que andar na rua. Isso está errado. Mas a quem reclamar, como reclamar, o que fazer? O supermercado do meu bairro coloca um carro de som no sábado as 8h00 da manhã anunciando o preço da laranja e tocando a música da Kelly Key para acabar com um sono mais prolongado no fim de semana. A quem reclamar? Se a impunidade está no meu quarteirão e está em Brasília, está em todo lugar. Grita-se por aumento de pena; redução da maioridade penal; punição exemplar. O problema está mesmo na impunidade. Qualquer reflexão sobre o tema leva à conclusão de que a conduta de uma pessoa está vincula a certeza da punição e não à pena imposta. Pense você mesmo: um aluno cola porque sabe que não vai ser pego (ou tem essa expectativa/certeza), não importa se a punição será grande ou não. Nada adianta a escola baixar um regulamento aplicando expulsão em caso de cola se o professor não fiscaliza. Essa certeza de impunidade leva à total falta de responsabilidade. Meu vizinho não se sente responsável pela obstrução da calçada, nada vai acontecer. O aluno não se responsabiliza pelo aprendizado, basta colar na prova. O político não se responsabiliza pela ética, nada vai acontecer. Só que as pessoas se cansam de tanta impunidade e acabam buscando alternativas, se ninguém faz justiça tudo é permitido. Se meu vizinho coloca areia na calçada, eu levo o meu cachorro para sujar a areia, só por vingança. Essa espiral cresce até as piores consequências pelos motivos mais mesquinhos. Vide mortes por brigas de trânsito. A impunidade tem um efeito deletério no convívio social. Sem punição não há responsabilidade, tudo pode.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

“Na natureza selvagem” (Into the wild, 2007). Recebi essa indicação de minha irmã caçula. Fiquei grudado na tela o tempo todo. É daqueles filmes que a gente fica pensando por horas ou dias. As emoções ficam se repetindo na cabeça como num labirinto e não se resolvem, esvanecem com o tempo. Mais impressionante para mim foi rever minha agenda de 1992. Eu recém-formado, tecnicamente desempregado, sem namorada e inseguro. Fui passar uns dias na casa de minha avó no interior e comecei a planejar uma viagem, juntei o pouco de grana que tinha, fiz meu passaporte e iria para o oeste o quanto pudesse, estado de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraguay, Bolívia, Equador. O quanto desse. Ainda tenho o trajeto no mapa da agenda. Assim como a cópia do poema de Borges “Labirinto”, cujo verso inicial dá o nome desse blog. Não fiz a viagem. Em vez disso, fiz o concurso da Sabesp, passei e comecei a trabalhar...

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Dia dos Pais

Ontem foi dia dos pais. E que dia! Nunca escondi que queria ter um filho, fui abençoado com uma filha e sou imensamente feliz por isso. Ensinei a ela o nome das ferramentas, a jogar xadrez, foi divertido. E só não foi em vão por que foi divertido. Nesse dia dos pais ela me deu dois presentes especiais, uma camiseta feita por ela mesma e fomos juntos assistir um jogo de futebol. Na verdade um jogo de futebol americano, na verdade da modalidade “flag” e para ver os Red Necks que perderam gloriosamente por 44 a 6. Pensei em ligar para os meus amigos que são pais e os parabenizar e receber também parabéns, mas não o fiz, fiquei curtindo o meu dia dos pais. Hoje, passada a euforia de um excelente domingo, eu pensei que a minha profissão de professor me faz em uma pequena medida o papel de pai, o papel de ensinar. Tenho colegas que não tem filhos, mas que adotaram vários alunos e sei que alguns desses alunos os tem em alguma medida como pais. Abaixo a letra de “Pai Grande” de Milton Nascimento. Meu pai grande Inda me lembro E que saudade de você Dizendo: eu já criei seu pai Hoje vou criar você Inda tenho muita vida pra viver Meu pai grande Quisera eu ter graça pra contar A história dos guerreiros Trazidos lá do longe Trazidos lá do longe Sem sua paz De minha saudade vem você contar De onde eu vim É bom lembrar Todo homem de verdade Era forte e sem maldade O dia vai O dia vem Todo filho seu Seguindo os passos E um cantinho pra morrer Pra onde eu vim Não vou chorar Já não quero ir mais embora Minha gente é essa agora Se estou aqui Eu trouxe de lá Um amor tão longe de mentiras Quero a quem quiser me amar