Meu tio Júlio tinha frases que podem ser classificadas como "Filosofia de Botequim". Uma delas era: "Envelhecer sorrindo." A príncipio pensava na questão de manter a alegria mesmo com as perdas da idade, mesmo com uma dorzinha aqui, uma restrição ali, devíamos manter a alegria e continuar sorrindo. Com um pouquinho mais de profundidade dá para entender como manter sempre o sorriso, já que envelhecemos um pouco a cada dia. A alegria da vida deve ser de todo dia.
Outra frase era: "Até as pedras se encontram." No rio uma pedrinha vai rolando, rolando e acaba por encontrar com outra. Ele sempre dizia isso quando falávamos de conhecidos, de viagens, de parentes distantes.
E isso é a mais pura verdade, até as pedras se encontram.
Nos despedimos no metrô em São Paulo, em um sábado à noite.
Você voltava de um concerto e eu iria para casa de minha vó depois de te ouvir
cantar. Estávamos de branco e preto, você por uniforme do coral e eu por pura
casualidade.
De lados opostos da estação eu brinquei de fazer sinais com
os braços, como fazem os marinheiros. Os trens chegaram e interromperam nosso
diálogo impossível.
Menos de um ano se passou e nunca mais pude saber se você
compreendeu minha brincadeira de sinais.
Hoje, depois de jantar, me pus a ouvir uma gravação sua do
Lundu Brasileiro. A música fluiu e então percebi que fluída é a música, é o
trem, é a vida.
Mesmo que se grave a música, que se fotografe o trem e que
se registre a vida em qualquer meio possível, é a fluidez que marca os momentos
que passamos.
A memória daquela despedida não é a despedida, que foi
eterna, mas uma lembrança. Só possível pela existência daquele momento. Aquele
momento que foi nosso e que agora é só meu na minha memória, que também é
fluída.
Não sei se nos encontraremos, no metrô de São Paulo ou no Tube Londrino, se retomaremos aquela
lembrança ou deixaremos que a memória daqueles momentos também flua e possamos
construir outros.
Lembrar bons momentos é uma das coisas mais gostosas da vida.
Para se ter bons momentos no futuro é preciso criar bons momentos agora. Estar disposto a se mover, a fazer algo, a encontrar pessoas, a fazer coisas diferentes...
Daqui 6 dias eu vou correr uma outra maratona.
A preparação não foi tão bem executada, mas estou confiante.
Chicago, lá vou eu!
Muita comoção apareceu nas redes sociais por conta do julgamento dos embargos infringentes pelo Supremo Tribunal Federal, decidido nesta última quarta-feira. Posições à favor e contra, posições baseadas no sentimento de impunidade, ou baseadas nas garantias legais, posições ideológicas, posições políticas e por assim vai.
Minha primeira opinião foi de confirmação da previsão de impunidade, mesmo que concorde com os aspectos legais da decisão tomada. Aprofundando o tema percebo que a sensação de impunidade é corrente e não está distante, em Brasília, senão aqui, no meu quarteirão, no meu dia-a-dia.
Meu vizinho vai fazer uma reforminha e deixa um monte de areia na calçada, eu tenho que andar na rua. Isso está errado. Mas a quem reclamar, como reclamar, o que fazer? O supermercado do meu bairro coloca um carro de som no sábado as 8h00 da manhã anunciando o preço da laranja e tocando a música da Kelly Key para acabar com um sono mais prolongado no fim de semana. A quem reclamar?
Se a impunidade está no meu quarteirão e está em Brasília, está em todo lugar. Grita-se por aumento de pena; redução da maioridade penal; punição exemplar. O problema está mesmo na impunidade.
Qualquer reflexão sobre o tema leva à conclusão de que a conduta de uma pessoa está vincula a certeza da punição e não à pena imposta. Pense você mesmo: um aluno cola porque sabe que não vai ser pego (ou tem essa expectativa/certeza), não importa se a punição será grande ou não. Nada adianta a escola baixar um regulamento aplicando expulsão em caso de cola se o professor não fiscaliza.
Essa certeza de impunidade leva à total falta de responsabilidade. Meu vizinho não se sente responsável pela obstrução da calçada, nada vai acontecer. O aluno não se responsabiliza pelo aprendizado, basta colar na prova. O político não se responsabiliza pela ética, nada vai acontecer.
Só que as pessoas se cansam de tanta impunidade e acabam buscando alternativas, se ninguém faz justiça tudo é permitido. Se meu vizinho coloca areia na calçada, eu levo o meu cachorro para sujar a areia, só por vingança. Essa espiral cresce até as piores consequências pelos motivos mais mesquinhos. Vide mortes por brigas de trânsito.
A impunidade tem um efeito deletério no convívio social. Sem punição não há responsabilidade, tudo pode.
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
“Na natureza selvagem” (Into the wild, 2007).
Recebi essa indicação de minha irmã caçula. Fiquei grudado na tela o tempo todo. É daqueles filmes que a gente fica pensando por horas ou dias. As emoções ficam se repetindo na cabeça como num labirinto e não se resolvem, esvanecem com o tempo.
Mais impressionante para mim foi rever minha agenda de 1992. Eu recém-formado, tecnicamente desempregado, sem namorada e inseguro. Fui passar uns dias na casa de minha avó no interior e comecei a planejar uma viagem, juntei o pouco de grana que tinha, fiz meu passaporte e iria para o oeste o quanto pudesse, estado de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraguay, Bolívia, Equador. O quanto desse.
Ainda tenho o trajeto no mapa da agenda. Assim como a cópia do poema de Borges “Labirinto”, cujo verso inicial dá o nome desse blog.
Não fiz a viagem. Em vez disso, fiz o concurso da Sabesp, passei e comecei a trabalhar...
Ontem foi dia dos pais. E que dia! Nunca escondi que queria ter um filho, fui abençoado com uma filha e sou imensamente feliz por isso.
Ensinei a ela o nome das ferramentas, a jogar xadrez, foi divertido. E só não foi em vão por que foi divertido.
Nesse dia dos pais ela me deu dois presentes especiais, uma camiseta feita por ela mesma e fomos juntos assistir um jogo de futebol. Na verdade um jogo de futebol americano, na verdade da modalidade “flag” e para ver os Red Necks que perderam gloriosamente por 44 a 6.
Pensei em ligar para os meus amigos que são pais e os parabenizar e receber também parabéns, mas não o fiz, fiquei curtindo o meu dia dos pais.
Hoje, passada a euforia de um excelente domingo, eu pensei que a minha profissão de professor me faz em uma pequena medida o papel de pai, o papel de ensinar. Tenho colegas que não tem filhos, mas que adotaram vários alunos e sei que alguns desses alunos os tem em alguma medida como pais.
Abaixo a letra de “Pai Grande” de Milton Nascimento.
Meu pai grande
Inda me lembro
E que saudade de você
Dizendo: eu já criei seu pai
Hoje vou criar você
Inda tenho muita vida pra viver
Meu pai grande
Quisera eu ter graça pra contar
A história dos guerreiros
Trazidos lá do longe
Trazidos lá do longe
Sem sua paz
De minha saudade vem você contar
De onde eu vim
É bom lembrar
Todo homem de verdade
Era forte e sem maldade
O dia vai
O dia vem
Todo filho seu
Seguindo os passos
E um cantinho pra morrer
Pra onde eu vim
Não vou chorar
Já não quero ir mais embora
Minha gente é essa agora
Se estou aqui
Eu trouxe de lá
Um amor tão longe de mentiras
Quero a quem quiser me amar
"Agora vou mudar minha conduta...vou tratar você com força bruta, prá poder me reabilitar..."
Tudo bem, eu realmente preciso ir à luta, as coisas não estão acontecendo e eu preciso dar uma sacudida. A inspiração veio do samba de Noel.
Mas quem eu preciso tratar com força bruta? Quem é o você? Quem vai me reabilitar?
Quem vai me reabilitar sou eu mesmo, mais ninguém. Isso foi fácil.
Quem é o você é mais difícil, se sou eu mesmo que tenho que me reabilitar, sou eu mesmo que tenho me tratar com força bruta? Parece que não. A força bruta não parece ser a receita para mim mesmo.
Será que é somente uma rima? Pode ser.
Prefiro acreditar que é a própria vida.
No mundo adulto eu preciso cavar o mesmo espaço e preciso colocar aí a minha ação. Não esperar que as coisas aconteçam, que os convites cheguem, que as oportunidades venham até mim.
Agora eu vou tratar você com força bruta! Vou atrás dos meus sonhos, bater em mais portas, me expor mais, ouvir "nãos", testar meus limites... agora é a hora.