Hoje ele se foi.
Quando eu o conheci já estava com dor e pelos relatos que ouvi não estava em seu melhor.
Ele andava com dor, andava de lado e chegava atrasado, mas não vi as medalhas. Vi a dor, e algum abandono. Vi a dor e o poder do alcóol destruindo por dentro, poder que nos envergonha, que nos impede de falar abertamente e reconhecer que o problema é de todos, que somos parte do problema, que não fomos capazes de lidar e nem estancar o mal.
Hoje ele se foi e não sofre mais a dor. Ficamos nós com a dor da perda.
Dor elegante
Um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante
carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisas que os valha
ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra
Paulo Leminski, La vie en close