segunda-feira, 2 de março de 2026

Medalhas

 Hoje ele se foi.

Quando eu o conheci já estava com dor e pelos relatos que ouvi não estava em seu melhor.

Ele andava com dor, andava de lado e chegava atrasado, mas não vi as medalhas. Vi a dor, e algum abandono. Vi a dor e o poder do alcóol destruindo por dentro, poder que nos envergonha, que nos impede de falar abertamente e reconhecer que o problema é de todos, que somos parte do problema, que não fomos capazes de lidar e nem estancar o mal.

Hoje ele se foi e não sofre mais a dor. Ficamos nós com a dor da perda.


Dor elegante

Um homem com uma dor

é muito mais elegante

caminha assim de lado

como se chegando atrasado

andasse mais adiante


carrega o peso da dor

como se portasse medalhas

uma coroa um milhão de dólares

ou coisas que os valha


ópios édens analgésicos

não me toquem nessa dor

ela é tudo que me sobra

sofrer, vai ser minha última obra


Paulo Leminski, La vie en close

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Arara Astuta

 Arara Astuta foi o nome do meu primeiro projeto quando tive a minha breve carreira de professor universitário em uma instituição pública.

A ideia era que os projetos fossem nomes de animais e um adjetivo com a mesma letra, meio que copiando as versões do Linux.

O primeiro projeto foi Arara pois estava em Ituiutaba onde muitas araras nos faziam companhia.

O projeto consistia em um apoio para ensinar programação usando o AppInventor para desenvolvimento de aplicativos em celular. Uma linguagem simples, por meio de blocos e com o apelo de ter seu próprio aplicativo no final do projeto.

Consegui a aprovação e 5 bolsas. Alunos que trabalhavam comigo davam as aulas e posso acreditar que foi um bom resultado.

Hoje um dos alunos que trabalharam no projeto está defendendo seu doutorado. 

Estou imensamente feliz e orgulhoso!



segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Herança

Uma herança é quase sempre bem-vinda. Isso porque já pensamos imediatamente em herdar dinheiro, imóveis, joias… Uma tia distante que se mudou jovem para a Inglaterra deixou de herança para você uma ilha no oceano Índico, e um advogado inglês de colete e cartola viajou até o interior do Brasil para te encontrar e dar a notícia. Típico conto de fadas que funciona bem nos livros de aventura.

Eu não tenho — e nunca tive — nenhuma esperança em relação à herança. Qualquer coisa será dividida entre oito irmãos; entre primos então, nem vale fazer a conta.

Ainda assim, me considero um felizardo em matéria de herança. Herdei da minha avó paterna e da minha tia o gosto por palavras cruzadas. De um avô, o gosto pela matemática e pelo xadrez; de outro, o caráter e as brincadeiras com crianças.

Hoje quero falar de uma outra herança — gigantesca e impossível de medir.

No ano passado fizemos um encontro dos descendentes da minha bisavó. Uma festa bonita, alegre, com muita gente e muitas lembranças. Tenho pouquíssimas recordações dessa minha bisavó — eu era menino quando ela se foi. Felizmente, lembro muito dos meus tios-avós (filhos dela) e tenho alguns primos e primas de outros graus como se fossem irmãos. Nesta festa, comentei que ter mestrado e doutorado não era nada demais, dada a alta densidade de diplomas no salão.

Esse gosto e valorização do estudo tem uma razão. Conta-se que, em um momento difícil, minha bisavó percebeu que seria complicado manter todos os filhos na escola. Então ela fez uma escolha: colocou as filhas para estudar e os filhos para trabalhar. Meu avô completou apenas o ensino primário; minhas tias-avós se formaram. Uma decisão que ia contra o espírito da época — o normal era que mulheres não estudassem. Com essa escolha, minha bisavó mudou o rumo da família e deixou como herança a valorização do estudo e a importância de ter uma formação.

Meus estudos são fruto dessa herança.